Gerdau para a produção de aço em Divinópolis
Com mais de 70 anos de história na vizinha cidade, usina será desligada e cerca de mil pessoas perderão o emprego
Dos cerca de 600 trabalhadores diretos da usina da Gerdau em Divinópolis, 280 já teriam sido demitidos e outros 120 receberam oferta para se transferirem para outras unidades do grupo, segundo informações divulgadas na imprensa regional. Conforme a Prefeitura de Divinópolis, cerca de mil famílias serão atingidas com a medida da empresa. Ainda conforme a Prefeitura, o número de demissões representa 7,4% das vagas de emprego na indústria divinopolitana. Para o anúncio, a empresa justifica “perda de competitividade” da operação.
Ainda conforme alegações da empresa, a aquisição de minério de ferro, matéria-prima para a produção do aço, a preços competitivos, o avanço das importações de aço no mercado nacional e as “condições desfavoráveis” do mercado internacional seriam os principais motivos para o encerramento da produção na usina divinopolitana. A medida deve causar impacto, também, nas cerca de duas mil microempresas instaladas na região dos bairros Interlagos e Porto Velho, a maioria delas com ligações com a Gerdau.
Situação parecida com a de Itaúna
Em 1999, no mês de dezembro daquele ano, a Cia. Industrial Itaunense decretou falência, ocasionando a demissão de centenas de trabalhadores que se somaram às demissões no setor siderúrgico, ultrapassando mil trabalhadores demitidos. Proporcionalmente, a situação de Itaúna foi um pouco pior. Para o enfrentamento da situação, a administração municipal à época, coordenada pelo ex-prefeito Osmando Pereira da Silva, implantou um programa de recuperação e diversificação da produção local.
No enfrentamento da crise gerada pelo fechamento da Itaunense, Itaúna ganhou a instalação de empresas como a atual Stellantis, a Patense, Intercast e uma dezena de outras que, ainda hoje, são a sustentação de cerca de 50% das vagas de emprego dos itaunenses.
Em Divinópolis, em um primeiro momento, veio a estupefação com a notícia e, em seguida, a prefeitura local já anunciou a implantação de programa de redução de impactos da medida. Conforme a prefeita do município vizinho, o programa visa “reduzir os impactos do encerramento da produção de aço da Gerdau sobre os trabalhadores e os negócios da cidade”. Ainda conforme a prefeita Janete Aparecida, “a prioridade é apoiar as pessoas afetadas, acompanhar a cadeia produtiva e defender a economia local”.
FIEMG Regional divulga nota
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais - FIEMG que tem a sua unidade Regional Centro-Oeste sediada em Divinópolis e, ante o anúncio da Gerdau, divulgou a seguinte nota:
“Nota da FIEMG Regional Centro-Oeste sobre encerramento da produção de aço da Gerdau em Divinópolis
Hoje é um dia triste para a indústria e para Divinópolis. O encerramento da produção de aço da Gerdau na cidade representa uma perda significativa para a economia local e, sobretudo, para centenas de trabalhadores e suas famílias que têm seu futuro profissional impactado por essa decisão.
Estamos falando de uma indústria com mais de 70 anos de história em Divinópolis, no mesmo endereço, considerando as operações anteriores à chegada da empresa, que ao longo de décadas contribuiu para o desenvolvimento do município, gerando empregos, renda, oportunidades e movimentando uma extensa cadeia de fornecedores e prestadores de serviços. Sua trajetória se confunde com a própria história do desenvolvimento industrial da nossa cidade.
Importante ressaltar que essa decisão também precisa ser compreendida dentro de um cenário internacional bastante adverso para a siderurgia brasileira. A China, por exemplo, enfrenta uma prolongada crise no setor imobiliário, com a desaceleração da construção civil e a consequente redução da demanda interna por aço. Diante desse quadro, os produtores chineses passaram a direcionar um volume crescente de sua produção excedente para o mercado internacional, pressionando os preços e ampliando a concorrência em países emergentes, entre eles o Brasil.
Somam-se a isso os desafios internos, especialmente o elevado Custo Brasil, que encarece a produção e compromete a capacidade de competição da indústria nacional. É um contexto que exige atenção e medidas estruturantes para garantir condições mais equilibradas de concorrência e preservar a capacidade industrial do país.
A FIEMG acompanha, há anos, os movimentos e os desafios enfrentados pela indústria siderúrgica e pelo setor produtivo da nossa região. Sabemos que situações como essa não se limitam aos portões de uma fábrica, seus efeitos alcançam trabalhadores, famílias, empresas fornecedoras, comércio e toda a dinâmica econômica do município.
Neste momento, nossa preocupação também está voltada às pessoas. É fundamental buscar caminhos para apoiar os profissionais impactados, contribuir para sua qualificação e recolocação no mercado de trabalho. A FIEMG, por meio de sua experiência e de sua estrutura de atuação nas áreas de educação profissional, formação e desenvolvimento industrial, está à disposição para dialogar com as instituições envolvidas e construir alternativas que possam minimizar os impactos dessa decisão.
Mais do que lamentar o encerramento de um ciclo tão importante, precisamos unir esforços para cuidar das pessoas, fortalecer a indústria que permanece e trabalhar para que Divinópolis continue sendo uma cidade de oportunidades, trabalho e desenvolvimento.
Eduardo Soares – Presidente da FIEMG Regional Centro-Oeste”.
FIEMG cita “custo Brasil” e “esquece” Tarifação do Trump
A nota da FIEMG Centro-Oeste foca apenas dois dos três motivos alegados pela empresa para anunciar o encerramento da produção de aço. A questão com a China, que, devido a questões internas, oferece aço a preços menores, acirrando o mercado, merece destaque.
Mas não cita que medidas do Governo Federal atuam na taxação de 25% do aço chinês e indiano como medida de proteção da indústria nacional. E só não impõe tarifa maior devido às questões que encareceriam produtos acabados, como veículos, por exemplo.
Ainda na nota da FIEMG, está citado o “custo Brasil”, que, nas palavras colocadas na nota, “(...) compromete a capacidade de competição da indústria nacional”.
Porém, não cita o Tarifaço do Trump, que, no caso específico do aço, taxa o produto brasileiro em 50%, praticamente inviabilizando as transações do Brasil com os norte-americanos. E é preciso lembrar, ainda, que o Tarifaço do Trump tem motivação claramente política, como até mesmo no anúncio da medida ficou explícito.
As análises são de que as instituições e seus gestores precisam “esquecer a disputa político-ideológica” e focar nos reais interesses das comunidades que representam.




