Mineração ameaça abastecimento de água na Grande BH
Estudo da UFMG aponta riscos da barragem da ArcelorMittal, em nível máximo de emergência, para a bacia do Paraopeba, considerada estratégica para o abastecimento hídrico da região
Itatiaiuçu está entre os municípios com maior número de barragens de mineração na bacia do Rio Paraopeba e abriga a única estrutura do país classificada com nível 3 de emergência, o mais alto da escala de risco. O dado consta em levantamento do Observatório de Barragens de Mineração da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com base em informações atualizadas em janeiro de 2026.
Segundo o relatório, o município possui 21 barragens e é onde está localizada a estrutura em nível máximo de emergência no complexo Serra Azul, operado pela ArcelorMittal. Esse nível indica potencial elevado de danos humanos, ambientais e socioeconômicos em caso de rompimento.
O estudo aponta que Itatiaiuçu integra uma região classificada como de “risco sistêmico”, termo utilizado quando a proximidade entre barragens pode fazer com que uma eventual falha provoque impactos em sequência em outras estruturas.
Minas Gerais concentra 35% das barragens do Brasil
Ao todo, o Brasil possui 911 barragens de mineração, sendo 319 localizadas em Minas Gerais, o equivalente a cerca de 35% do total. Ainda de acordo com o levantamento, o número de estruturas em nível de alerta ou emergência no estado caiu de 42, em janeiro de 2025, para 27, em janeiro de 2026.
Apesar da redução, Minas segue como o principal território de risco do país, especialmente na região do Quadrilátero Ferrífero, onde há grande concentração de barragens e de rejeitos.
Na sub-bacia do Rio Paraopeba, onde está Itatiaiuçu, os pesquisadores identificaram cerca de 20 complexos de barragens, formados por estruturas localizadas próximas umas das outras, o que aumenta o potencial de impactos em cadeia em caso de acidente.
Risco pode afetar abastecimento de água
O estudo também alerta para possíveis impactos no abastecimento público. Segundo o relatório, 99 barragens estão situadas acima de pontos de captação que atendem a Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Entre os sistemas considerados vulneráveis, está o Paraopeba, que inclui a captação de Serra Azul, localizada em Itatiaiuçu e responsável por parte do fornecimento de água da região.
De acordo com os pesquisadores, um eventual rompimento pode comprometer o abastecimento de milhões de pessoas.
Menos barragens, mais rejeitos
O levantamento mostra ainda que, embora o número de barragens tenha diminuído, o volume de rejeitos armazenados aumentou. No Quadrilátero Ferrífero, o total de estruturas caiu de 227 para 213 entre 2025 e 2026. No entanto, o volume passou de 1,033 bilhão para 1,042 bilhão de metros cúbicos.
Segundo o observatório, esse crescimento indica que o risco permanece e está mais concentrado em determinadas estruturas e regiões.
Municípios da região estão entre os mais sensíveis
De acordo com o relatório, os riscos não se distribuem de forma uniforme e se concentram em municípios com grande número de barragens, como Itatiaiuçu, Brumadinho e Congonhas. Essas cidades estão situadas em áreas estratégicas do ponto de vista ambiental e hídrico e possuem estruturas próximas entre si.
Transparência e fiscalização
Entre as medidas sugeridas pelos pesquisadores estão: ampliação da transparência sobre a situação das barragens; fiscalização independente e presencial, principalmente no período chuvoso; gestão da segurança hídrica por bacia hidrográfica; responsabilização em casos de falhas.
Segundo o relatório, a ausência de acidentes recentes não elimina os riscos existentes. “O cenário exige uma abordagem preventiva e transparente, antes que novos números se convertam novamente em tragédia”, aponta o documento.
As informações estão disponíveis para consulta pública através do site do grupo de pesquisa EduMiTe-UFMG.





