Ramal Ferroviário gera críticas e preocupação em Itatiaiuçu

Prefeito afirma não ser contra investimentos, defende caminhoneiros, cobra diálogo e alerta para impactos na economia local e no meio ambiente

Ramal Ferroviário gera críticas e preocupação em Itatiaiuçu

O prefeito, Romer Soares, usou as redes sociais, no dia 5 de julho, para criticar a aprovação do projeto do Ramal Ferroviário Serra Azul, da Cedro Participações, já autorizado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Ao lado de Everaldo, representante da CoopItatiaiuçu, Romer expressou a preocupação com a falta de diálogo e transparência do projeto, além de defender os caminhoneiros da região, duramente atacados em uma propaganda veiculada pela empresa na Rádio Itatiaia.

O vídeo criticou a aprovação do projeto de forma “precipitada, sem qualquer diálogo ou transparência com os municípios e a comunidade afetada” e também criticou a propaganda que chama a rodovia 381 de “rodovia da morte” e atribui aos caminhoneiros o título de “assassinos”.

“Nós não somos contra o progresso e muito menos [contra] o investimento, quanto do mineroduto quanto da rodovia, só que o que nos deixou muito triste é uma propaganda, que está veiculada na Rádio Itatiaia, que a Cedro soltou, falando que os nossos guerreiros, trabalhadores e caminhoneiros são assassinos [...]”, desabafou Romer. 

Romer também alertou para os impactos econômicos na cidade, especialmente na CoopItatiaiuçu, que hoje emprega cerca de 150 trabalhadores. “Só queremos deixar claro para a Cedro que não é de qualquer forma que vocês vão entrar. Foi aprovado pela ANTT da noite para o dia e nós vamos querer saber onde vai passar, o que vai afetar o meio ambiente e, principalmente, o que vai fazer com esses pais de família que sempre trabalharam com caminhão”, questionou.

Everaldo reforçou a fala do prefeito, lembrando que os motoristas locais têm investido em segurança e melhorias nos equipamentos. “A realidade não é bem essa, todos os motoristas, não só da CoopItatiaiuçu como da região, têm investido muito em equipamentos para trazer mais segurança para eles e para todos que utilizam este trecho da rodovia”, afirmou. 

Diante disso, a classe pretende realizar um estudo para mostrar a realidade da rodovia, como investimentos na segurança e número de acidentes. 

Sobre o projeto da Cedro

Com 26,4 quilômetros de extensão e voltado para o transporte de cargas em trechos estratégicos e investimento de R$ 1,5 bilhão, o ramal vai ligar os municípios de Mateus Leme e Mário Campos, criando uma rota exclusiva para o escoamento de minério de ferro. O projeto impacta diretamente os municípios de Itaúna, Mateus Leme, Igarapé, São Joaquim de Bicas e Mário Campos e, indiretamente, municípios da região, como Itatiaiuçu. 

A promessa é que o impacto será direto, com 5 mil carretas a menos nas estradas todos os dias, interferindo em toda a região. Com isso, a empresa garante menos acidentes, menos congestionamentos e mais tranquilidade para quem trafega pela região. 

O começo das obras está previsto para novembro de 2029, e a conclusão, para novembro de 2033, com início da operação em novembro de 2034.

O projeto já obteve um Decreto de Utilidade Pública da ANTT, o que autoriza os levantamentos necessários para desapropriação e indenização das áreas afetadas. Podem ser atingidas, segundo a ANTT, faixas do terreno que vão de 20 a 150 metros de cada lado dos trilhos. Mas o traçado definitivo ainda não foi oficialmente divulgado.

Preservação e desapropriações

Além do impacto econômico, o projeto preocupa ambientalistas, moradores e autoridades políticas em relação aos impactos socioambientais. Um dos pontos críticos é a passagem da ferrovia por áreas sensíveis, como a Serra de Igarapé e a Pedra Grande, patrimônio geológico da região, além de nascentes e córregos que alimentam o Sistema Serra Azul, importante para o abastecimento hídrico da Grande BH.

Conforme destacado pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), há preocupação com a segurança hídrica, já que o Sistema Serra Azul é alimentado pelas mesmas nascentes e cursos d’água, que podem ser impactados pelas intervenções necessárias para instalar os trilhos. As informações são de que o ramal ferroviário poderá comprometer 78 córregos e unidades de conservação na região.

Além disso, na rota dos trilhos, estão dezenas de pequenas propriedades rurais dedicadas à produção de hortifrutigranjeiros, condomínios e bairros residenciais, que podem ser prejudicados através de uma série de desapropriações de imóveis.

Em visita técnica realizada pela Comissão, no dia 27 de junho, agricultores afirmaram que o projeto pode deixar rastro de seca e fome na zona rural de Mateus Leme. Além disso, denunciaram invasão de propriedade, sobrevoos inesperados de drones, prospecções dos terrenos e pressão para que forneçam informações pessoais e documentos.

“Não há como conciliar uma ferrovia com a agricultura familiar. O que está em jogo é a segurança hídrica e alimentar da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Essa ferrovia vai destruir vidas, é impossível concordar com isso. Aqui já tem geração de renda, de emprego. As famílias não precisam desses trilhos. A Cedro tenta se impor pelo seu poder político e econômico e, mesmo convidada, sequer aparece para ser questionada”, destacou a deputada estadual Beatriz Cerqueira.

O clima geral é de apreensão com a ausência de informações oficiais, embora já estejam sendo veiculados peças publicitárias em veículos de comunicação elencando as vantagens do projeto, como a diminuição do fluxo de caminhões carregados de minério em toda a região.

Desenvolvimento com sustentabilidade

Durante Audiência Pública na ALMG no dia 3 de julho, representantes de municípios do Circuito Veredas do Paraopeba, que inclui Itaúna, Igarapé, Mário Campos e São Joaquim de Bicas, discutiram os riscos do projeto para o turismo, gastronomia e economia criativa local. Isabella Rezende, do Movimento Unidos Contra a Ferrovia, denunciou a ausência de estudos ambientais adequados e a ameaça à Área de Preservação Ambiental de Igarapé. “O empreendimento está correndo às cegas e não possui sequer um estudo de impacto ambiental, social e econômico”, destacou. 

Participantes ressaltaram que a economia de várias cidades ainda depende da mineração, influenciando nos investimentos em projetos de cultura e turismo, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, mas alertaram para a necessidade de uma transição econômica, com investimentos em cultura e turismo, setores que poderiam ser prejudicados com a chegada da ferrovia.

“O minério não é perene, daqui a alguns anos não vai existir. Precisamos pensar uma transição para que essas cidades possam continuar sua história de sucesso”, disse o secretário de Cultura e Turismo de Itaúna, Marcinho Hakuna.

Mineroduto também em debate

Paralelamente, tramita na ALMG o Projeto de Lei 3.402/25, que pode dificultar o licenciamento de minerodutos na Região Metropolitana. Municípios mineradores temem perda de investimentos bilionários e aumento do desemprego caso a proposta avance.

Durante a audiência na ALMG, participantes destacaram o impacto do projeto na região. O vice-prefeito de Igarapé e presidente da Associação do Circuito Turístico Veredas do Paraopeba, Daute Henriques Alvim, afirmou que, caso seja aprovada, a proposição pode impactar investimentos de mineradoras da ordem de até R$ 6 bilhões. “A falta desse investimento vai gerar desemprego e afetar a circulação de dinheiro na região”, disse.